Entrevista: Uma experiência na Austrália

Nos últimos dias a equipe do AZ Agronômico esteve entrevistando um casal de agrônomos aventureiros, que deixaram a vida pacata de uma cidadezinha do interior do Paraná para explorar novos caminhos, novas culturas e por que não, novos conceitos na agricultura. Atualmente os dois residem na Polônia, onde fazem mestrado, mas o caminho deles em terras internacionais começou a ser traçado um pouco antes, na Austrália. Vamos por partes!

Não pude deixar de fazer um convite para que se tornassem colunistas do AZ! Então em breve vocês terão várias informações de como é a vida de agrônomo “lá fora”.

Confira abaixo a nossa entrevista com Janaína e Thiago!

AZ: Como vocês decidiram realizar esse intercâmbio? Teve algum vinculo institucional?

J: Desde que iniciei o curso de Agronomia sabia que deveria possuir algum diferencial antes de entrar para o mercado de trabalho. No decorrer de toda a graduação fiz curso de inglês e decidi realizar o intercâmbio na Austrália, onde pude validá-lo como estágio final requerido ao final da graduação. Fomos em março de 2017, as regras da universidade eram diferentes das atuais em relação ao estágio final, não houve vínculo, o contato foi direto com a agência de imigração australiana, mas na volta pude validar as horas requeridas para minha formação.

T: Desde adolescente tive o sonho de morar fora do Brasil e ser fluente em outro idioma. Trabalhei um ano como assistente técnico e mais dois anos prestando serviços para uma multinacional, e quando ocorreu uma fusão entre empresas veio a incerteza de continuar empregado, foi então que decidi que era a hora de investir no sonho.

AZ: O fato de um já estar formado e atuando na área e o outro, na época ainda ser estudante foi algum empecilho ou o intercâmbio serve para estudantes de graduação e pessoas já formadas simultaneamente?

J: Por ser estudante acabou facilitando pela imigração exigir comprovantes de um vínculo com o Brasil (matrícula), pois se muito preocupam com turistas que pretendem residir no país ilegalmente.

T: Ser formado e já estar trabalhando não se torna um empecilho para o intercambio, ter experiência na área ajuda na hora da aplicação para o programa. Acredito que a parte mais difícil é largar algo seguro no Brasil para ir pra algo totalmente desconhecido.

AZ: Existe algum tipo de entrevista antes da empresa contratar um estagiário na Austrália? Quais são os assuntos abordados?

JT: No nosso caso não houve necessidade de realizar a entrevista por Skype, assim como geralmente é feito uma entrevista sobre as suas experiências e uma entrevista em inglês para o nivelamento. Os demais processos foram feitos normalmente, porém todos em inglês, como por exemplo:

- Montagem do currículo;

- Aplicação (perguntas e respostas sobre experiências na área e expectativas sobre o intercâmbio);

- Carta referência;

- Autobiografia;

- Comprovantes de proficiência em inglês, etc.

AZ: É totalmente em inglês? A fluência é ponto determinante?

JT: O contato foi direto com a agência da Austrália, logo, todo o nosso processo de aplicação foi em inglês. Ao nosso ponto de vista, o domínio da língua é sim um ponto determinante, uma vez que você precisa entender todo o processo de aplicação e tirar as suas dúvidas.

No trabalho também é fundamental, você precisa entender suas tarefas diárias, tirar dúvidas, receber instruções por telefone ou via rádio, e até mesmo entender o que fez de errado em certas situações.

AZ: Quando chegaram ao local, era mesmo o que imaginavam? Quais foram as funções delegadas a cada um?

JT: Não, era totalmente diferente do que imaginávamos, começando pelo inglês, você acha que consegue se comunicar e se depara com chefes que possuem um sotaque característico do Sul da Austrália, muitas gírias e sem pronunciar as palavras completamente. Outro fator que nos surpreendeu é o quão prestativos e solícitos os australianos são, e como eles confiam na sua palavra.

Para ambos as funções principais eram as mesmas, buscar os rebanhos nos piquetes e realizar a ordenha (sistema carrossel). Após a ordenha dos dois rebanhos, eram feitas as trocas de cerca dentro dos piquetes (rotação de pastejo sob pivôs de irrigação), limpeza geral da máquina de ordenha e plataforma.

Também eram realizadas atividades paralelas, como pulverização de plantas daninhas, corte de grama, preparo do solo, secagem de vacas, treinar as novilhas para entrada na plataforma antes de serem integradas no rebanho, etc.

AZ: Vocês tinham um tempo pra curtir ou a jornada de trabalho não era muito flexível?

JT: Tínhamos sempre uma escala de trabalho quinzenal já definida, com um ou dois dias de folga por semana. Logo, conseguimos visitar novos lugares e viajar pelo país.

AZ: Na realidade vocês trocaram de emprego durante o intercâmbio, certo? Por quê?

JT: Sim, trocamos de fazenda pois vimos que na fazenda leiteira já havíamos realizado todas as funções possíveis, logo, se tornou maçante e repetitivo, com longas horas de trabalho. Percebemos também que pouco conversávamos com os outros funcionários, pois o trabalho era realizado “sozinho”, não havendo uma melhora significativa no nível de inglês, sendo esse um dos principais motivos da nossa ida para a Austrália.

AZ: Então se uma pessoa chegar ao local de intercâmbio e não se adaptar, a empresa que mediou o intercâmbio consegue realoca-la ou vocês buscaram um trabalho por conta própria mesmo?

JT: Sim, há a possibilidade de realocação de fazendas, geralmente é demorado mas não impossível, com um bom motivo a empresa irá aceitar. No nosso caso foi mais complicado, por estar procurando outra fazenda que aceitasse duas pessoas pelo mesmo período, então decidimos ir atrás por conta própria também. Visitamos muitas fazendas na região distribuindo currículos e fazendo contatos, onde então conseguimos acelerar o processo de mudança.

AZ: Admirável a coragem em sair de uma suposta segurança e partir para o “capitalismo selvagem” australiano rsrs. Como era esse outro local de trabalho?

JT: Ao nosso ver, o novo local de trabalho era um ambiente muito mais organizado, onde as tarefas eram realizadas sempre em equipes, com diferentes funções durante o dia, fazendo com o que o trabalho não se tornasse monótono. Além de nossos colegas de trabalho serem de diferentes países, possibilitando uma grande troca de experiências e melhorando muito o nível de inglês.

AZ: Mas pelo que conversamos vocês tiveram uma boa vivência com o campo. Podem contar pra nós sobre os métodos de trabalho de lá? Existem muitas diferenças?

JT: Sim, o método de trabalho é totalmente diferente, onde é recebido por hora trabalhada, e o trabalho deveria ser realizado de maneira rápida e eficiente, tentando evitar erros ao máximo, realmente tempo é dinheiro e literalmente se trabalha até o último minuto planejado para o dia, sem enrolações ou “jeitinhos”.

A Austrália não possui uma infinidade de feriados nem décimo terceiro, mesmo que se trabalhe no feriado. Em feriados o pagamento por hora é em dobro, como forma de valorização. Não existe preconceito de nenhum modo e o trabalho manual é muito valorizado e respeitado.

AZ: Muitos costumam falar que a Austrália é o “Brasil que deu certo”. Na agricultura, podemos dizer a mesma coisa?

JT: Sabemos que o Brasil é uma grande potência em Agricultura, sendo maior que a Austrália em níveis de produção, com maior disponibilidade de solos aráveis. Porém, os produtores australianos tem maior consciência quanto ao uso de defensivos, descarte de embalagens e se preocupam muito com a preservação do meio ambiente.

Lembro-me do dia em que o proprietário da fazenda solicitou pulverização em uma área com plantas daninhas, fiz um comentário a respeito da resistência de algumas plantas daninhas ao glifosato no Brasil, e ele me respondeu dizendo: “Claro, vocês usam sempre o mesmo produto!”.

AZ: O uso da tecnologia por lá é mais intenso? São ferramentas que vem pra ajudar?

JT: Nas áreas em que trabalhamos vimos o uso intenso de ferramentas de alta tecnologia que facilitam o dia a dia na fazenda. Os produtores tem uma grande aceitação e interesse por novas tecnologias e ferramentas.

Na fazenda leiteira o proprietário possui uma mini estação meteorológica, da qual ele recebe todos os dados em seu smartphone, permitindo um melhor controle do uso dos pivôs de irrigação de forma eficaz.

Enquanto na fazenda de flores, praticamente toda a glasshouse era monitorada e controlada por smartphone, desde o sistema de irrigação, cortinas de sombrite, abertura e fechamento de janelas, umidade e temperatura.

AZ: Existem as mesmas variedades de doenças nas culturas?

JT: Sim, porém em menor escala. Sendo o trigo a cultura de maior produção no país, logo existe uma maior preocupação com doenças como ferrugem, septoriose e rhizoctonia. Quando falamos em soja e milho (grão), o estado de New South Wales é o maior produtor, pois é uma região onde tem duas safras (inverno e verão) e as doenças encontradas são basicamente as mesmas as quais vemos no Brasil.

AZ: A ferrugem asiática aqui no Brasil é uma das principais doenças da Soja, principalmente nos últimos tempos, que tem demonstrado certa resistência aos principais fungicidas. Existe alguma explicação para a ocorrência em baixa proporção em terras australianas?

JT: Uma explicação é a menor quantidade de área plantada, uma vez que as regiões onde são plantadas safras de verão são bastante restritas devido a condições climáticas. Tendo uma quantidade reduzida, logicamente o controle e o monitoramento sobre a ferrugem se torna mais eficiente.

Outra explicação é a conscientização por parte dos produtores em realizar a rotação de princípios ativos, não só para controle de doenças, mas também insetos e plantas daninhas, reduzindo assim as chances de ocorrência de perda de sensibilidade.

AZ: As doenças de solo são problemas sérios como aqui no Brasil?

JT: Como a conscientização é grande, prioriza-se a prevenção por meio da rotação de culturas, retirada da palhada evitando patógenos oportunistas na matéria orgânica em decomposição. Porém, apresentam doenças como, por exemplo, a fusariose (Fusarium spp.), podridão das raízes (Pythium spp.) e também tombament ou damping-off (Rhizoctonia solani), além dos nematoides de lesão (Prathylencus thornei e Prathylencus neglectus).

AZ: Caso tenha alguma doença no solo ou até mesmo nematoides, existem tecnologias que proporcionem uma marcação da área para que se tenha uma atenção redobrada no decorrer do tempo?

JT: Nas áreas que acompanhamos normalmente o dono mantém um mapeamento de todas as áreas que possui, podendo assim manter um histórico e também um controle preciso do que ocorre em cada ponto específico, aumentando a eficiência dos tratamentos, evitando perdas e auxiliando nas tomadas de decisões.

AZ: Agora, apresentando vocês como colunistas do AZ-Agronômico, quero expressar nossa gratidão em ter vocês como parte de nossa equipe. Para finalizar poderiam deixar uma mensagem para o pessoal que pretende se aventurar fazendo intercâmbio em terras australianas... Ou neozelandesas... Ou polonesas (estou dando spoiler... Rsrs)?

JT: A mensagem é valida tanto para estudantes recém-formados ou atuantes no mercado de trabalho. Acreditamos que o intercâmbio é um grande desafio e um grande passo a ser tomado. Devemos dizer que não é fácil, pois você estará inserido em uma cultura totalmente diferente, com pessoas que pensam diferente, em uma rotina diferente e que a adaptação e o entendimento da língua é obrigatório, literalmente é o lugar onde “o filho chora e a mãe não vê”. Porém, será algo que te fará crescer mais do que profissionalmente, aprenderá a resolver problemas sozinho, a procurar soluções da melhor maneira possível e a pensar fora da caixa. Entre todos os locais que podemos trabalhar e estudar, afirmamos que não nos arrependemos de nenhum deles, mesmo com todas as dificuldades encontradas, faríamos tudo novamente.

 
 
Colunistas

Vinícius T. Franceschi

Possui graduação em Engenharia Ambiental e mestrado em Agroecossistemas pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Desenvolveu a nova escala diagramática para a quantificação da severidade de ferrugem asiática da soja, composta por 10 níveis e imagens reais (resumo publicado e artigo aguardando publicação). Atualmen...

Janaína Bruzamarello

Engenheira Agrônoma pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná Mestranda em Agricultura pela Uniwersytet Rolniczy w Krakowie (Cracóvia , Polônia)

Thiago Augusto Peron

Engenheiro Agrônomo pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná Mestrando em Agricultura pela Uniwersytet Rolniczy w Krakowie (Cracóvia , Polônia)